Inteligência Artificial pode levar a "mudança muito significativa" nos cuidados de saúde

Créditos: DR (arquivo)
Investigadora defende que a inteligência artificial pode tornar os cuidados de saúde mais proativos e personalizados face a crises e envelhecimento da população
A investigadora Ana Maria Madureira defende que a inteligência artificial pode transformar os cuidados de saúde "tradicionalmente reativos" em modelos "mais proativos e mais personalizados". Esta especialista, diretora do INESC Inov, considera que a tecnologia poderá dar resposta à "necessidade clara" de novas ferramentas para os profissionais.
Em entrevista ao programa da TSF Fontes Europeias, a também professora do Instituto Superior de Engenharia do Porto sustenta que a evolução tecnológica foi mais rápida do que se antecipava. "Efetivamente, há duas décadas, nada fazia antever esta evolução abrupta do que visualizamos, como efeitos da inteligência artificial e das suas aplicações nos diferentes domínios", afirma.
De acordo com a investigadora, esta transformação está diretamente ligada ao avanço tecnológico e digital dos últimos anos, que "veio, de alguma forma, acelerar os desenvolvimentos, os desafios, a aplicação e os defeitos que dela conhecemos no nosso dia a dia". Na área da saúde, considera que a IA representa "uma grande oportunidade", inserida no processo mais vasto de "transformação digital" dos sistemas hospitalares.
Para Ana Maria Madureira, a mudança poderá alterar o próprio paradigma da prestação de cuidados. "O atendimento virtual e a IA podem efetivamente levar a uma mudança muito significativa de paradigma ao nível dos cuidados de saúde tradicionalmente reativos, tornando-os mais proativos e mais personalizados", afirma. No futuro, acrescenta, os sistemas de saúde poderão ter "um maior foco no desenvolvimento de cuidados mais especializados em hospitais ditos inteligentes e nos cuidados ao domicílio", apoiados por monitorização à distância e intervenção rápida em caso de necessidade.
Pandemia
A seguir à pandemia de Covid-19, a investigadora coordenou um projeto europeu de formação com o objetivo de desenvolver cursos de formação em competências digitais e inteligência artificial para apoiar os profissionais de saúde na gestão de crises, na automatização de tarefas e no suporte ao diagnóstico, financiado pelo programa EU4Health, que desenvolveu módulos de formação dirigidos a profissionais clínicos e não clínicos.
Segundo explica, a iniciativa e-Hospital4Future surgiu num contexto marcado pela crise sanitária. "O projeto surgiu numa conjuntura muito particular; estamos a referir-nos à pandemia de Covid-19, que veio, por um lado, destacar e enfatizar a fragilidade dos sistemas nacionais de saúde, mas, por outro, também enfatizar as grandes competências e a grande capacidade de resiliência dos nossos profissionais de saúde."
O projeto apostou na criação de "soluções de aprendizagem flexíveis" destinadas a profissionais clínicos e não clínicos, centradas na integração da "transformação digital e da inteligência artificial na área da saúde". E foi coordenado por um consórcio que integra universidades, centros tecnológicos e hospitais de oito países. Este é um dos vários projetos que contribuem para a implementação de políticas europeias prioritárias no domínio da competitividade e prontidão. Foi divulgado no âmbito do HaDEA Project Showcase 2026, evento organizado pela Agência de Execução Europeia para a Saúde e o Digital (HaDEA), que reuniu em Bruxelas projetos financiados pela União Europeia nestes domínios.
O objetivo passou por facilitar a formação ao longo da vida e incorporar os desafios da "transformação digital e da inteligência artificial na área da saúde", procurando responder às dificuldades identificadas junto dos diferentes perfis profissionais.
Apesar de admitir que o projeto não chegou a todo o universo de profissionais, Ana Maria Madureira considera que os resultados demonstram interesse significativo. "Temos a noção de que conseguimos chegar a uma pequena porção do público-alvo. De qualquer forma, foi uma experiência muito rica e (...) detectamos e identificamos que efetivamente há uma grande necessidade, há uma grande ânsia dos profissionais de saúde" por ferramentas que ajudem a lidar com os problemas do dia a dia e a automatizar tarefas.
A investigadora acrescenta que os profissionais estão "abertos para essa necessidade" de reforço de competências digitais, procurando "novas soluções e novas ferramentas" que possam apoiar tanto as atividades diárias como o suporte ao diagnóstico.
Diversidade
No plano europeu, a investigadora admite diferenças culturais entre países, mas identifica um denominador comum. "Há aqui um fator comum que nos uniu no sentido da necessidade do suporte aos profissionais de saúde, dotando-os de ferramentas e serviços digitais que possam melhorar a sua profissão e a sua interação com o paciente."
O consórcio envolveu três grandes grupos profissionais - médicos de clínica geral, especialistas e enfermeiros - cujas necessidades foram consideradas distintas. Enquanto os enfermeiros enfrentam desafios mais orientados para o cuidado direto, os médicos beneficiam de ferramentas que auxiliem na "detecção precoce" e no apoio ao diagnóstico, mantendo sempre a decisão final sob responsabilidade clínica.
Futuro
Questionada sobre a possibilidade de evoluir de projetos-piloto para uma política europeia estruturada de formação em saúde, Ana Maria Madureira mostra-se confiante. "Eu tenho certeza que sim", afirma, referindo uma "grande preocupação por parte da comunidade europeia no sentido de suportar e dinamizar medidas que permitam a continuidade destes projetos".
Embora o financiamento inicial esteja concluído, a plataforma digital criada no âmbito do projeto - que integra 19 cursos de formação - será mantida "pelo menos durante dois anos". Ainda assim, a investigadora reconhece que a rápida evolução tecnológica coloca desafios à atualização constante dos conteúdos.
Para a responsável, o "hospital do futuro" dependerá da conjugação entre tecnologia e fator humano, numa realidade em que a inteligência artificial poderá reforçar a capacidade de resposta dos sistemas de saúde perante uma população envelhecida, sem substituir a decisão clínica e a dimensão humana dos cuidados.