Arábia Saudita, as mulheres e o futebol europeu

A Arábia Saudita acordou tarde para o mundo do futebol, mas acordou. Nos últimos dias, e no seguimento da organização da Supertaça espanhola em 2020, das tentativas falhadas de compra do Newcastle em Inglaterra e de patrocinar Cristiano Ronaldo e Lionel Messi, ficámos a saber que este país árabe está em «negociações com o Real Madrid para uma parceria de cerca de 150 milhões como patrocinador principal da equipa feminina nos próximos dez anos. O negócio também engloba um acordo para que pelo menos quatro jogadores da equipa masculina passem a ser promotores do projecto Qiddiya, cujo objectivo é transformar-se na capital saudita do desporto e entretenimento.»

Por mais que custe aos sauditas a sua opção de diversificar a sua economia para além das receitas vindas do sector energético (no caso saudita o petróleo) não é de todo inovadora. Olhando para a região percebemos claramente que o Qatar é de longe o melhor exemplo dessa aposta. Há muito que este pequeno país no Golfo Pérsico tem olhado para a sua economia de forma mais abrangente do que «apenas» receitas do gás natural. Quando pensamos neste país e no futebol europeu saltam imediatamente à vista três exemplos: o patrocínio do Barcelona durante anos, o clube francês PSG e, para horror dos sauditas, a organização do Campeonato do Mundo no próximo ano.

E, na verdade, os Emirados Árabes Unidos também têm feito este percurso de forma inteligente e com um perfil mais discreto. Há o óbvio patrocínio que aparece nas camisolas de muitos clubes tais como o Benfica em Portugal, o Real Madrid em Espanha ou o Arsenal em Inglaterra, mas também encontramos presença dos Emirados nos próprios clubes de futebol e em estádios. Para ser honesta o processo de entrar na Premier League e em outros campeonatos europeus foi claramente trilhado pelo dinheiro russo do qual o Chelsea é um de vários exemplos. O objectivo principal dos investimentos que são feitos em nome ou por estes regimes ditatoriais é o de tentar junto do público europeu melhorar a sua imagem externa. Neste campeonato também temos de incluir outros países tais como a China.

Então o que torna este exemplo da Arábia Saudita digno de registo entre tantos outros? Claramente a sua ênfase no futebol feminino e na sua articulação com um regime político que é consistentemente descrito como um dos piores do mundo em matéria de direitos das mulheres. Sem dúvida, que nos últimos tempos temos tido pequenos sinais positivos neste país, mas serão suficientes para acreditarmos que esta medida visa promover o futebol feminino na Arábia Saudita? Tendo em conta o registo de Mohammed bin Salman, o líder saudita, tenho muitas, mas mesmo muitas dúvidas. Em matéria de direitos humanos e liberdades civis aconselho a leitura do último relatório da Freedom House, que é bastante elucidativo do nível de repressão saudita.

Em suma, perante ditadores deste calibre e países cuja história e interpretação religiosa olham para as mulheres como seres inferiores não tenho ilusões quanto às suas boas intenções.

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