
Carlos César, António Costa e Ana Catarina Mendes durante a Comissão Política de terça-feira
Miguel A. Lopes/LUSA
A Comissão Política bloqueou hipótese de ataque à liderança e mandatou Costa para "falar com o conjunto das forças políticas".
"Não é reforçado. A situação mantém-se como estava, não havia nada para reforçar", afirmou António Costa à saída da sede do partido, depois de questionado sobre se o encontro tinha ou não servido para legitimar a sua posição enquanto líder do PS.
Quatro horas depois do início da reunião, o secretário-geral socialista não só não tinha sido confrontado com nenhuma candidatura interna imediata como saía com um "mandato muito claro" aprovado sob a forma de documento.
"O mandato que temos é para falar com o conjunto das forças políticas. Neste quadro parlamentar que é novo e que exige de todos um grande sentido de responsabilidade para o país, vamos avaliar e tentar encontrar boas soluções programáticas para o país", disse.
O PS não fecha, assim, a porta a quaisquer entendimentos à esquerda ou à direita, e parte para o diálogo pós-eleitoral com a função de aferir "disponibilidades", mas com a noção de que é à coligação que cabe "criar condições de governabilidade".
"Havendo um partido que tem mais deputados, é natural que lhe caiba o ónus de procurar encontrar soluções de governabilidade. E temos de naturalmente ouvir o que o PSD tem a dizer sobre as soluções de governabilidade, mas devemos falar com todas as forças políticas, sem exceção", sublinhou, reforçando também a ideia de que não está disponível para um governo de "bloco central", pelo que "não favorece a democracia".
Quanto a PCP e Bloco de Esquerda, o documento aprovado pela Comissão Política é claro: "O PS considera indispensável a clarificação das posições publicamente assumidas pelo PCP e pelo BE sobre a existência de condições para a formação de um governo com suporte parlamentar maioritário".
No documento, aprovado com 63 votos a favor, quatro contra (um dos quais de Álvaro Beleza) e três abstenções, o PS garante ainda que, à semelhança do que disse António Costa na noite eleitoral, não exercerá o papel de "maioria negativa" e "apenas apostada em criar obstáculos".
Mas, o líder do PS encurta as distâncias e adianta que a negociação parte de um princípio: a recusa do conceito de arco da governação. Por entender que "negativamente,
tenta delimitar quem são as forças políticas que podem participar em soluções governativas".
Costa critica encontro "atípico" de Passos e Cavaco
Depois de ouvir Cavaco Silva falar em "tempo do compromisso" e em apelos do Presidente da República para que o novo governo seja "estável e duradouro", António Costa deixou criticas ao que entende ter sido um encontro "atípico" entre o chefe de Estado e o Primeiro-ministro.
"O Presidente da República, se quer ser um promotor de diálogo, não deve considerar que é suficiente falar com o líder do seu partido. Portanto, não é essa a função do Presidente da República. Acho que não seria construtivo comentar muito mais aquilo que não requer muitos comentários por ser de tal forma evidente", disse.
Visivelmente incomodado com o agendamento da reunião, acrescentou: "Aquilo que resulta da Constituição é que o Presidente da República, na sequência do ato eleitoral, deve promover a audição das diferentes forças políticas. Bem sei que não houve um ato de indigitação, mas um convite para que procedesse a avaliações. Portanto, são figuras novas, relativamente atípicas, mas que não conduzem propriamente à construção de boas soluções de estabilidade governativa, nem de diálogo entre as diferentes forças partidárias".
Álvaro Beleza fora da corrida, para já
Anunciou a disponibilidade para avançar para o lugar de secretário-geral, mas também disse que avançaria apenas caso Francisco Assis não se colocasse à disposição de desafiar António Costa.
No final da reunião, o dirigente socialista acabou por adiar uma eventual candidatura: "Essa questão é para depois das presidenciais", disse, depois de responder com um "não" a uma jornalista que deixou a questão: "É ou não candidato?".
"A análise, a reflexão e a clarificação interna será depois das presidenciais. Haverá um congresso", sublinhou.
Fora da corrida, e frisando que o PS deve agora "concentrar-se" nas presidenciais, o antigo membro do secretariado nacional da direção liderada por António José Seguro deixou, no entanto, críticas ao documento aprovado na Comissão Política: "O PS não pode ser o partido das meias-tintas. Para mim clareza é dizer que não está disponível para fazer um governo de imediato de frente-esquerda".
"O PS não concorreu para tirar a maioria absoluta ao Governo, o PS concorreu para ter um primeiro-ministro, que era o António Costa", acrescentou.