A debandada no SEF: segurança nacional "cada vez mais em risco"

O Serviço de Estrangeiros e Fronteiras perdeu mais de 300 funcionários, desde que foi anunciada a sua extinção. Quase um terço são inspectores. Um deles relata à TSF o "trauma enorme" que está a criar conflitos no trabalho e nas famílias.

Rui (nome fictício) ficou "revoltadíssimo" com a decisão do Governo em acabar com o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF).

Inspector do SEF há quase 20 anos, sentiu-se "injustiçado", uma vez que investiu na carreira ao longo do tempo, completando um mestrado e várias pós-graduações na área das migrações e criminalidade. Agora, sente que "foi uma inutilidade, deixamos de ser importantes e não serviu para nada. É um desprestígio enorme e nunca pensei que acontecesse", confessa no último dia ao serviço do SEF.

A partir deste mês de Maio, Rui vai integrar o corpo permanente (Standing Corps) da Frontex, a Guarda Europeia das Fronteiras e Costeira, que vigia as fronteiras da União Europeia (UE). É este o destino de dezenas de inspectores do SEF, que procuram, assim, a valorização e o reconhecimento que dizem não existir em Portugal.

"Eu ficaria cá a fazer o quê?", interroga-se Rui, que se sentiu forçado a emigrar, como se dissessem aos inspectores: "Vão para a Frontex, porque lá é melhor." Para trás, deixa a família. "A minha mulher deixou-me. Separou-se de mim, porque dizia que eu estava insuportável." O filho, que vivia com Rui, terá de mudar-se para casa da mãe e trocar de escola. "Vai sair-me do pêlo", lamenta Rui, que começou também a ter problemas de hipertensão e colesterol, devido à ansiedade causada pela situação no SEF.

É um "trauma enorme não só nos inspectores, mas nas famílias" e nos locais de trabalho, "a situação é de tal forma insustentável, que está a provocar conflitos". Por isso, Rui considera que adiar a extinção do SEF é "pior a emenda do que o soneto", já que irá criar "mais problemas de saúde, mais problemas no local de trabalho, mais instabilidade e ansiedade, vamos sentir-nos usados, mais uma vez", o que terá efeitos na segurança nacional, que "já está em perda há 2 anos e cada vez vai entrar mais (em risco)".

Como Rui, dezenas de inspectores do SEF vão trabalhar para a Frontex.

Nos próximos dias, terão de apresentar-se ao serviço na sede em Varsóvia, na Polónia. Segue-se uma formação de seis meses, após a qual poderão ser destacados, a todo o momento, para os chamados hotspots, os pontos quentes de fronteira de qualquer país da UE. A mobilidade é compensada financeiramente. Os inspectores podem receber três vezes mais do que ao serviço do SEF, mas Rui salienta que perdem estabilidade pessoal e familiar. Durante os cinco anos em que estará na Frontex, Rui tem três objectivos: "Tentar motivar-me, tentar juntar o máximo de folgas para visitar a minha família e conseguir crescer dentro da organização, já que não consegui na organização que abracei em 2004."

Até 22 de Abril, o SEF perdeu 333 funcionários, revela à TSF fonte do Sindicato da Carreira de Investigação e Fiscalização do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras.

Quase uma centena - 97 - eram inspectores; 106 pertenciam à carreira geral e outros 130 passaram à disponibilidade.

Quando anunciou um segundo adiamento da extinção do SEF, o ministro da Administração Interna, José Luís Carneiro, prometeu que o processo decorreria com "serenidade, estabilidade e confiança", mas o governante não fixou uma nova data para o anunciado fim do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras.

A autora não escreve segundo as normas do novo Acordo Ortográfico

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