"Grandes líderes não há, mas os 'Mários' Soares aparecem quando são precisos"

"Grandes líderes não há, mas os 'Mários' Soares aparecem quando são precisos"

Aos 85 anos, o embaixador José Cutileiro lança um livro de memórias e crónicas chamado Inventário: Desabafos e Divagações de Um Cético. Diplomata, ateu, alentejano de Évora, português no mundo, viveu em três continentes, estudou Medicina, doutorou-se em Antropologia, dirigiu uma organização europeia, fez um plano de paz para a Bósnia, foi dos primeiros a ser recebido por Nelson Mandela quando o líder sul-africano saiu da cadeia. Hoje continua atento ao mundo e observa-o na TSF.

José Cutileiro

Entre mortos e vivos

Há mortos e mortas com quem às vezes prefiro estar a estar com muitas vivas e vivos que ainda por aí andam. (É tudo, já se sabe, uma questão de tempo embora a gente nem sempre se lembre disso, até porque a vasta maioria de nós não é suicida nem assassina, não tocando por isso sequer ao de leve no calendário dessas efemérides). Tudo isto para contar que quando companhia feita na vida por gente que já morreu me falta agora, a trago para o pé de mim e passo tempo com ela para minha paz de espírito, ou para reforço da minha zona de conforto, ou para reencontro de momentos de doçura de vida ou de perplexidade partilhada.

José Cutileiro

O Deus dará de um ateu

Começo a escrever à mão, como aprendi há 80 anos - agora não sei se ainda se aprende assim, se se aprende de maneira nova ou se já se voltou a aprender assim - em páginas da minha agenda de bolso deste ano, que vai desde 10 de Novembro do ano passado e por isso tem muita folha virgem. Esperava a minha vez na consulta porque viera adiantado: broncalina do camandro na Nos tornara telefones incapazes de chamar táxis e apanhei um que trouxera uma senhora ao lugar onde estou a viver e ficara livre. O taxista, gordo, simpático, entre sessenta e setenta, a pergunta minha respondeu que continuava a haver muito turismo mesmo com o verão acabado.

José Cutileiro

Terra de ninguém

Os ciganos e os ricos são todos primos uns dos outros, dizia a mãe de amiga minha que não era nem rica nem cigana e tinha olho de antropóloga antes de se falar dessas coisas por cá (antes de Professor Leite de Vasconcellos anotar que havia ouvido uma varina dizer "áugua"; do Professor Jorge Dias começar a contar os vizinhos que havia em Rio de Onor). No século XIV, numa feira em Aragão, homem que gritasse alto o seu nome, via-se logo cercado de parentes prontos a defendê-lo de quem o atacasse. Já não é assim em Aragão e não sei se alguma vez assim foi por cá.

José Cutileiro

Calor

Num país como a Bélgica, dividido entre duas nações que se detestam, Bruxelas é uma ilha de tranquilidade, variedade e decência - uma espécie de Nova Iorque dos pobres, se a leitora entende o que eu quero dizer. Talvez por haver aqui muitos estrangeiros, o ódio recíproco de valões e flamengos esbate-se num universo muito mais vasto. (Não estou a exagerar quanto a esse ódio. Muitos anos antes de eu pôr os pés na Bélgica, tive colega belga, embaixador como eu no Conselho da Europa em Estrasburgo, quase na idade da reforma, jovial e rubicundo, que um dia, a propósito de coisa nenhuma me perguntou: Tu sais ce que c"est que la pollution? E respondeu ele próprio: Un Wallon dans la Meuse ! Et tu sais ce que c"est que la solution? Tornou a responder: Tout les Wallons dans la Meuse!! O homem não era só belga: era embaixador da Bélgica, e deveria ter por obrigação defender os interesses de todos os belgas, mas tal não lhe passava pela cabeça.

Correcção política

Correcção política

1982. Recepção do Presidente da República ao corpo diplomático em Maputo. À entrada, Samora Machel saúda os embaixadores e outros chefes de missão que o vão cumprimentando. Chega a minha vez:

«Senhor Presidente... »

«Olá, patrão» e, olhando pedagogicamente para a cara atónita do embaixador da Alemanha Federal, logo atrás de mim na bicha - nessa altura havia duas Alemanhas, a Federal com capital em Bona, membro da OTAN, expiando convicta a pena dos seus crimes de guerra e a Democrática, com capital em Berlim, membro do Pacto de Varsóvia, convencida de que a conversão ao comunismo a limpara dos ditos crimes (e, de caminho, dirigindo e executando toda a intelligence da República Popular de Moçambique, incluindo as escutas a nossas casas) - social-democrata dedicado à cooperação com o Terceiro Mundo, acrescentou: «Ele era o meu patrão...»

José Cutileiro

Coisas de cá e lá fora

Não vi o Expresso de há duas semanas mas li o Vasco Pulido Valente segunda-feira no Público e encontrei lá o Nuno Bragança. Ao contrário do Vasco eu gostava do Nuno e do que ele escrevia; acho que a primeira linha de A Noite e o Riso- « Criado embora entre hálitos de faisão, cedo me desembaracei na arte de estender os braços.» - ficará pequenina pérola da nossa literatura. E achei bons esse seu primeiro romance e o terceiro, Square Tolstoi; o do meio tinha tanto em directo, chamava-se Directa,da vida do Nuno (e da Leonor) que decidi a certa altura parar de o ler e não sei avaliá-lo.

José Cutileiro

Guerras

Leio no jornal que americanos, russos e chineses trabalham em mísseis hipersónicos capazes de viajar a mais de 15 vezes a velocidade do som, de atingir num quarto de hora alvos russos ou chineses se forem americanos (ou americanos se forem russos ou chineses), levando cargas explosivas e podendo perfurar as paredes mais resistentes de abrigos atómicos subterrâneos ou as couraças de porta-aviões americanos. Leio também que, ao contrário do que acontecera a partir de certa altura durante a guerra fria, não há conversas entre os protagonistas para criar regras de protecção mútua que ajudassem a lidar com acidentes ou mal-entendidos. Nesse como em qualquer género de armamento, os americanos de Trump não estão interessados em nada que cheire a prevenção e os outros tampouco insistem.

José Cutileiro

A visão do saguão e o instinto da porta de serviço

Quando era diplomata, lembro-me de ter achado de vez em quando que quem mandava em nós - os nossos chefes políticos - abundava nesses atributos pelintras porventura impostos pela miséria da pátria (várias bancarrotas desde o liberalismo monárquico até à república de Abril, sempre vistas como pecaminosas por protestantes do Norte). A visão do saguão e o instinto da porta de serviço não são manhas de pobre - essas também por cá as temos - são, por assim dizer, coordenadas cartesianas do modo subalterno de viver. Vêm juntas com a desconfiança do dinheiro de muitos católicos - por exemplo, do Papa Francisco - e também de muitos comunistas, como aquele, à época secreto no Portugal de Salazar, que me louvava, contristado, comadre sua comerciante, diligente e cada vez menos pobre: "É boa rapariga a Antónia; só tem aquela coisa do lucro...".