Com mais "saúde" e "feliz", Margarida Silva é campeã surdolímpica e faz história no atletismo

Erika Ikeda/CPP
A marmelada ajudou, os contas do dorsal também, mas o mérito é todo dela. Margarida Silva demorou a assumir que é surda. Hoje já não vê problemas na condição, corre com "mais saúde", é "feliz no atletismo" e estreia-se nos Jogos Surdolímpicos, em Tóquio (Japão), com uma medalha de ouro nos 800 metros e uma de prata nos 1.500: "São muito especiais."
Margarida Silva sagrou-se campeã surdolímpica nos 800 metros e fixou um novo recorde da prova. A conquista deste domingo surge quatro dias depois de garantir a prata nos 1.500 metros e confirma a melhor estreia possível nos Jogos Surdolímpicos, que este ano têm lugar em Tóquio, no Japão.
"É pesadinha [a medalha de ouro]. É o peso da responsabilidade também de ter uma medalha desta cor. E, portanto, tem-se o peso, obviamente", reagiu entre risos, em declarações ao Comité Paralímpico, logo após cortar a meta.
A atleta portuguesa, de 25 anos, é surda severa e passou grande parte do percurso desportivo a esconder a sua condição. Quando percebeu que "está tudo bem com isso", admite que mudou tudo (no treino, na saúde mental e no próprio rendimento competitivo). Margarida começou a competir na categoria adequada e "a recuperar o que tinha perdido".
"Quando assumi a minha surdez, foi muito com o objetivo de reduzir alguns níveis de stress que eu tinha na competição e porque as coisas não estavam a correr bem a nível do atletismo. Os últimos 15 meses foram meses para recuperar o tempo que tinha sido perdido. Estas medalhas são muito especiais por isso mesmo, porque representam o recuperar e correr com saúde, que é o mais importante, que era uma coisa que eu não tinha há 15 meses. Feliz, também, porque não estava feliz a fazer atletismo", afirmou.
"Se eu dizia que a medalha de prata era a concretização de um sonho, então a de ouro é muito mais."
Margarida Silva correu os 800 metros em 2:10.38, estabelecendo um novo recorde dos Jogos Surdolímpicos (antes era 2:10.50).
Com esta conquista, torna-se também na primeira portuguesa a conquistar uma medalha de ouro para o atletismo em Jogos Surdolímpicos.
Antes de partir para Tóquio, Margarida tinha revelado à TSF o que era preciso para as provas correrem bem. Além de comer "religiosamente" um cubo de marmelada, as contas com o número do dorsal tinham de dar um. E assim foi. Margarida Silva é vice-campeã nos 1.500 metros e campeã surdolímpica nos 800 metros.
Na segunda-feira, a meio-fundista volta à pista para competir nos 5.000 metros. Os Jogos Surdolímpicos decorrem até 26 de novembro, em Tóquio.
Portugal conta, até ao momento, com cinco medalhas: duas de ouro, duas de prata e uma de bronze.
