
Companhia das Lezírias
DR Arquivo
Com tempestade atrás de tempestade, os danos já se fazem sentir em boa parte dos cerca de 18 mil hectares da Companhia das Lezírias. As cheias estão a agravar o cenário, desde os arrozais à floresta de sobreiro, pinhais e vinhas, na margem sul do Tejo, entre Benavente e Alcochete
Depois da Kristin e do Leonardo e à espera de novo agravamento do tempo e de novas descargas das barragens, Eduardo Oliveira e Sousa, presidente da Companhia das Lezírias, confirma à TSF que existem danos na propriedade, já com muita área inundada e património afetado, mas prefere esperar que a água baixe, para perceber os prejuízos reais.
"Há muito património afetado e convém lembrar que a Companhia das Lezírias detém a maior área florestal contígua na zona metropolitana de Lisboa. A estimativa por enquanto é completamente redonda e aleatória. Posso dizer que há milhões de euros de prejuízo, de certeza que há, mas, mais do que isso, não consigo adivinhar. É perfeitamente prematuro. Há zonas muito afetadas, umas mais do que outras, mas esses estragos, mesmo que já tenham ocorrido, estão invisíveis, porque estão debaixo de água. Agora, há que ter calma. Há que ter cuidado. Esperar que toda esta situação acalme e depois, então, avaliar como deve ser os prejuízos e encontrar soluções para ajudar as pessoas."
Para o gestor, esta não é uma subida de água serena como acontecia no passado e deixava terras fertilizadas. Esta é uma cheia severa, em que a força da corrente destrói tudo o que encontra.
"Esta cheia é agressiva, por causa da velocidade da água. O que provoca danos, mais do que a própria cheia, é a velocidade da água. Se fosse uma cheia sossegada, a água ia subindo devagar e depositando sedimentos, esse fenómeno da fertilização só se verificaria assim. Quando é uma cheia violenta, associada a descargas, a grandes trovoadas, a situação não é tão pacífica. Não só porque os sedimentos não têm tempo de baixar e ficarem presos no terreno, como provoca estragos provocados pelo volume e velocidade da água. A criação de alvercas ou o rompimento de estruturas hidráulicas aumenta a corrente de água que provoca danos. Esses danos são muito superiores aos eventuais benefícios daquelas cheias antigas, tal como aprendemos sobre as cheias do Nilo e toda essa fertilidade associada ao depósito que as águas dos rios deixam, mas hoje os regimes são diferentes."
Por enquanto, tem apenas uma certeza. Nesta altura, a área danificada pela força dos ventos das últimas tempestades e das cheias já é extensa e num espaço privilegiado que designa de pulmão da cidade de Lisboa.
"Neste momento, é uma área que está a ser muito fustigada, com árvores caídas, com caminhos cortados, com áreas submersas, naquele que é o verdadeiro pulmão de Lisboa, a charneca da Companhia das Lezírias. No nosso relatório de sustentabilidade de 2025, está prevista a fixação ou o sequestro de cerca de 35 mil toneladas de carbono, o que corresponde a 22 viagens de avião, de ida e volta, entre Lisboa e Nova Iorque, ou a 12 mil automóveis que façam 30 mil quilómetros no ano. Isto é o resultado desta mancha de floresta, essencialmente de sobreiros e de pinheiros que o Estado tem nesta sua propriedade às portas de Lisboa. Quanto às cheias, o Ribatejo sempre foi assim."
Oliveira e Sousa teme ainda o agravamento da situação nos próximos dias, pois acredita que a chuva das próximas 24 horas ainda não está a passar no Tejo e virá mais água de Espanha.
"Esta depressão de Leonardo passou durante a noite em Portugal, está agora sobre Espanha. Toda essa água que está a cair no país vizinho, irá passar amanhã e depois pelo nosso país e agravar o caudal do Tejo, também todas as zonas ribeirinhas associadas a linhas de água, até no Vale do Sorraia. Apesar da gestão dos rios e das barragens diminuir esses impactos, quando os limites ultrapassam determinado volume, como está a acontecer este ano, a água não pode ser retida e terá que percorrer o seu caminho."
Por enquanto, não passam de preocupações do presidente da Companhia das Lezírias, entidade que gere grandes extensões de terreno e atividades agrícolas/pecuárias, com o Estado a deter a totalidade do seu capital e boa parte do seu património desde a lezíria ao montado, já debaixo de água.
