"As pessoas preferem não mostrar medo." Portuguesa conta como Christchurch recupera

Há um memorial no local dos ataques, as ruas estão silenciosas e os residentes tentam encontrar uma forma de ajudar a comunidade muçulmana. No dia seguinte ao ataque que matou 49 pessoas, Christchurch não quer mostrar medo.

Christchurch, a cidade neozelandesa que foi alvo de um ataque a duas mesquitas, acordou na ressaca de um massacre. Aos poucos, a cidade vai tentando voltar à normalidade, como conta à TSF uma portuguesa que vive na cidade há 10 anos.

Este sábado, conta Sofia Silva Eastmond, estão "todos numa espécie de ressaca em relação ao que aconteceu. É completamente inesperado e, se há poucos lugares no mundo onde um ataque desta natureza faria sentido, Christchurch é certamente o último sítio em que pensámos que isto iria acontecer. É um choque enorme, mas estamos calmo. Há calma e confiança. As pessoas preferem não mostrar medo."

A portuguesa recorda, como termo de comparação. a "reação coletiva" da Nova Zelândia aos terramotos de 2011, que também assolaram a região de Christchurch e fizeram 185 vítimas mortais.

"As pessoas continuam a sair à rua, talvez com um pouco mais de reserva, com muitas perguntas. Temos tido várias conversas difíceis com os nossos amigos sobre o que é que isto tudo significa. O povo neozelandês é muito acolhedor, muito pacífico e muito solidário. O dia de hoje [sábado] é para começarmos a questionar o que podemos fazer para apoiar a comunidade muçulmana que sofreu estes atentados", explica.

Além de ajudar a comunidade muçulmana, é também dia de tentar perceber como é que podem ultrapassar este episódio e conversar sobre ele com, por exemplo, as crianças, tentando explica o que aconteceu. Sofia Silva Eastmond explica que os professores fizeram um bom trabalho com as crianças, que foram obrigadas a ficar nas escolas até mais tarde. Junto aos locais onde aconteceram os ataques já há flores depositadas.

"Há agora um memorial. As pessoas começaram a pôr flores perto do sítio onde aconteceu. Há menos pessoas na rua, há uma certa calma, um certo silêncio comparado a um sábado normal. Procuramos voltar ao normal, especialmente com as nossas crianças. É difícil explicar-lhes o que aconteceu, mas os professores fizeram um trabalho fenomenal. As escolas estiveram todas em lockdown, muitos de nós tivemos os nossos filhos nas escolas até mais tarde, sem saber quando podiam sair", recorda, explicando que se segue uma tentativa de restabelecer a normalidade.

À TSF, Sofia Silva Eastmond reconhece que é difícil conceber um ataque deste género num sítio onde a tolerância impera.

"Eu nunca senti a presença óbvia de racismo. Existe, tal como existe em qualquer outra sociedade, mas não está presente no dia-a-dia de forma óbvia. A cidade é super segura, não há nenhum sítio onde não consideraria ir sozinha, é um sítio muito seguro. Temos a diversidade cultural de outros sítios, mas temos a tolerância e a vida por cá é pacata. Tem um passo mais lento do que o resto do mundo, pelo menos das cidades desenvolvidas semelhantes. É muito difícil compreender. Nas nossas vidas, estamos rodeados de amigos de várias culturas. Eu também sou emigrante. É um sítio tão tolerante e tão aberto que é muito difícil imaginar que algo deste género fosse acontecer", reconhece.

Esta quinta-feira, em Christchurch, pelo menos 49 pessoas morreram e 48 ficaram feridas num ataque às mesquitas de Linwood Masjid e de Al Noor, perto de Hagley Park, na Nova Zelândia.

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