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O restaurante Taberna do Alfaiate, na Lapa, concelho do Cartaxo, é um pequeno reduto quando chegamos, e transforma-se em palácio à medida que a refeição vai acontecendo. Quando fui pela primeira vez, há muitos anos, foi exatamente essa a noção com que fiquei. Na segunda vez, contudo, já fui a contar com essa dimensão espiritual e houve menos surpresa. É, contudo, sempre um enorme prazer para os sentidos. João Espírito Santo e a sua mulher Maria da Conceição decidiram em 1991 fazer uma mudança radical nas suas vidas e abrir a Taberna do Alfaiate. O curioso nome da casa deve-se ao facto de o avô de João ter sido alfaiate de profissão. A chef Conceição é cozinheira de mão cheia desde a fundação da casa, mas era contabilista nessa altura. O filho de ambos, Nuno, adaptou-se bem ao ofício e chama a si a batuta vínica, mantendo viva a copiosa garrafeira. É brilhante na harmonização com comida, pelo que é com dele que recebemos os melhores conselhos.
Nos pratos de peixe tenho recomendações muito fortes, a matriz culinária mantém-se fiel às tradições e raízes ribatejanas. Faz-se um arroz de tamboril que fulmina todas as outras declinações do prato. Temperos sempre bem puxados, mas sem exageros, são o segredo de quase todos os pratos. A nossa chef faz a melhor feijoada de choco que eu provei na vida, e fica com um ar incrédulo quando elogiamos a sua fantástica arte. Gosto muito também da sua massada de corvina, é uma espécie de reconciliação com a vida. As migas de bacalhau à moda do Ribatejo são fabulosas, ricas em colagénio e cozinhadas com muita contenção. Sobretudo nunca passa o ponto de cozedura, que arruinaria todo o conjunto. Tem muitos segredos, e Conceição domina tudo com notável mestria. Ainda nos pratos de peixe, não posso deixar de aconselhar vivamente o magnífico bacalhau assado no forno com amêijoas.
Os pratos de carne ostentam glórias regionais muito boas. Coloco o cabrito assado no forno, foram muito poucos os que provei noutras casas e que se lhe aproximam. A genial Conceição desenvolveu um prato de antologia, que é o porco à padeiro. Funde técnica e temperos com a receita ancestral do cabrito à padeiro e eleva o porco assado a um patamar superior. Adoro o porco com arroz de feijoca, é trabalho de génio que todos devíamos conhecer e comer. O pato assado no forno com mel é delicioso. E o naco de boi em vinho tinto é de inspiração divina.
Divinas são também as sobremesas, todas confecionadas aqui. Imperdíveis o bolo de bolacha e o cheesecake. Nesta Taberna do Alfaiate, tudo é feito à nossa medida.