Luanda Leaks, Brexit ou a vingança do Irão. Grandes problemas esquecidos no furacão Covid-19
Covid-19

Luanda Leaks, Brexit ou a vingança do Irão. Grandes problemas esquecidos no furacão Covid-19

Sem que tenham ficado resolvidos, os demais problemas do mundo estão em pausa, são capítulos por encerrar depois de um longo aparte chamado Covid-19. Outros mantêm-se tão reais como sempre, apenas fora dos holofotes mediáticos.

Em cenas dos últimos episódios... Antes de o mundo ser atingido por uma pandemia, preocupava-se com a guerra comercial entre a China e os Unidos Unidos, o Brexit, a crise de refugiados, as alterações climáticas. O escândalo do Luanda Leaks fazia manchetes e o Irão prometia vingar a morte do general Soleimani. As eleições norte-americanas estavam mesmo aí à porta e os candidatos democráticos perfilavam-se para fazer frente a Trump.

De repente, o mundo viu-se a braços com um cenário sem precedentes. Os jornais concentram todos os esforços em informar o público sobre o novo coronavírus e os países (ou os seus governantes) parecem ter colocado na gaveta todos os problemas que nada tenham a ver com Covid-19.

A vingança do Irão

No início do ano, Donald Trump " atirou dinamite para um barril de pólvora ". Foram as palavras usadas por Joe Biden para descrever o assassinato do general iraniano Qassem Soleimani, num ataque aéreo perpetrado pelos Estados Unidos em Bagdade, Iraque.

O Irão prometeu "uma vingança implacável " contra os EUA, mas dias depois abateu inadvertidamente um avião civil ucraniano com um míssil, provocando a morte das 176 pessoas a bordo. Ao pedido de desculpas, o ministro dos Negócios estrangeiros do país acrescentou a justificação: "foi erro humano em tempos de crise causada pelo aventureirismo norte-americano que levou ao desastre".

O mundo ficou de olhos postos nos dois países, à espera do próximo movimento neste perigoso tabuleiro de xadrez, mas a partida ficou suspensa com a chegada da pandemia.

"As prioridades de todos países alteraram-se de forma significativa e o Irão não é exceção", diz o especialista em política internacional Miguel Monjardino, em declarações à TSF. "São muitos os choques internos a que o regime está submetido agora, portanto presumo que a principal prioridade de Teerão não seja uma vingança, mas muito mais a sobrevivência e uma adaptação a uma situação excecional."

Com quase cinco mil mortes (incluindo de membros do Governo) e mais de 76 mil casos de contágio por Covid-19 até ao momento, segundo números oficiais, o Irão viu-se obrigado no sábado passado a autorizar a retoma gradual da atividade para tentar evitar um colapso total da economia fortemente afetada pelas sanções norte-americanas .

Crise dos refugiados

A crise de refugiados desapareceu completamente das manchetes dos jornais de todo o mundo desde o início da pandemia. "É o que costuma acontecer em sociedades apanhadas de surpresa por uma emergência. Os líderes políticos têm de escolher prioridades, e a questão das migrações não é uma prioridade neste momento."

Com os programas de acolhimento suspensos, milhares de pessoas estão num limbo que depressa se pode transformar num inferno caso a Covid-19 chegue aos campos sobrelotados. "O destino dessas pessoas não é uma prioridade política para nenhum governo a nível europeu por uma razão, brutal, mas muito simples: os migrantes não votam", lamenta Miguel Monjardino.

Eleições norte-americanas

Não fossem os constrangimentos do distanciamento social, e campanha norte-americana para as presidenciais de novembro estaria ao rubro. Sem grandes comícios e apertos de mão aos eleitores, tudo fica em aberto na corrida à Casa Branca.

"A campanha eleitoral basicamente não existe, mas aconteceram coisas que consideraríamos quase impensáveis no inicio do ano", como o regresso do ex-vice-presidente Joe Biden , cuja candidatura foi esta esta semana endossada por Barack Obama, e a desistência, do seu já único rival nas primárias democratas, o senador Bernie Sanders, nota o especialista.

As redes sociais têm um papel importante na angariação de votos, mas "a proximidade física que sempre fez parte da política não será possível" nas atuais circunstâncias, pelo que esta será certamente "uma campanha diferente".

Importa perceber, alerta Miguel Monjardino, de onde vêm os fundos angariados, quer por Donald Trump quer por Joe Biden, e não negligenciar eventuais ações de campanha dissimuladas. Como a exigência de Trump para que os cheques que o Governo vai dar aos cidadãos para atenuar o impacto da pandemia tenham seu nome, decisão inédita que inclusive está a atrasar o apoio financeiro .

Brexit

Com o próprio negociador da União Europeia para o Brexit contagiado pelo novo coronavírus, as negociações sobre a futura relação de Bruxelas e Londres foram interrompidas. Michel Barnier regressou esta semana ao trabalho e reuniu-se esta quarta-feira por videoconferência com o seu homólogo britânico, David Frost, para discutirem os próximos passos.

Estavam ainda previstas novas rondas negociais em abril e maio, alternando entre as duas cidades, e uma cimeira de líderes em junho para avaliar o progresso e decidir sobre uma eventual extensão do período de transição, que termina a 31 de dezembro. Tudo está em suspenso, mas o governo britânico já reiterou que não pretende pedir um prolongamento.

"As negociações serão difíceis", mas Miguel Monjardino considera que o processo do Brexit, do ponto de visto burocrático e da administração pública, invisível para muitos de nós, foi feito". Resta saber "que tipo de Brexit vai ocorrer e "até que ponto é que a alteração das circunstâncias não mudará os termos da negociação e a forma como tanto os britânicos como a União Europeia olham para a saída. "Vamos ter de esperar algum tempo para perceber melhor."

Luanda Leaks

O caso do Luanda Leaks parece ter ficado completamente esquecido, mas a justiça não está de quarentena. Com a libertação do pirata informático Rui Pinto, que aceitou colaborar com as autoridades , são expectáveis novas revelações deste escândalo em breve?

"Sim e não", responde Monjardino. Talvez sim, "porque o tema da corrupção continuará a ser importante", eventualmente não, "porque a pandemia levará os governos a ter muito mais poder nos próximos tempos", defende.

"Em sociedades que não são democracias liberais acho que vai haver muito mais oportunidade, por força da centralização do poder, para a corrupção", alerta o especialista. "Pior ainda quando nos países que já não eram um bom exemplo na luta contra a corrupção a energia fóssil é o principal fator de receitas do Estado, ou de pessoas que dominam o Estado."

No caso de Angola, deverá cortar cerca de 18% da produção de petróleo, em média, até abril de 2022 e segundo as previsões de FMI enfrentará este ano uma recessão económica de 1,4% e um aumento da dívida pública para 132,2%.

Já a antiga eurodeputada Ana Gomes diz que "é um verdadeiro Portugal Leaks" o que os portugueses podem esperar a partir de agora "para combater a corrupção e a criminalidade, e recuperar o que tem andado a ser roubado ao Estado, ou seja, a todos os portugueses que pagam os seus impostos".

Guerra comercial entre EUA e China

Donald Trump já disse que não vê nenhuma razão para remover as tarifas aduaneiras retaliatórias na guerra comercial com a China, apesar da crise económica provocada pela pandemia. Os EUA continuam a impor sansões a produtos importados da China e as tensões agravaram-se com sucessivas acusações do presidente norte-americano sobre o que diz ser "o vírus chinês".

A trégua possível deu-se por telefone, a 27 de março, com Donald Trump e o homólogo chinês, Xi Jinping a negociar o envio para os EUA de material médico e de proteção proveniente da China.

"O preço pago inicialmente por esta pandemia foi muito elevado, mas agora a China sente que o momento está do seu lado. O Partido Comunista Chinês sente que tem aqui uma grande oportunidade", nota Miguel Monjardino.

O FMI prevê que a economia mundial tenha uma recessão de 3% em 2020, fruto do apelidado "grande confinamento", mas estima que a China escape à norma com um crescimento do PIB de 1,2% em 2020 e 9,2% em 2021, de acordo com as Perspetivas Económicas Mundiais divulgadas esta terça-feira.

Para o especialista em relações internacionais, "estamos a embarcar numa onda muito alinhada com a visão que Pequim tem dar de si mesma", excessivamente otimista, quando na verdade "a economia chinesa é mais frágil do que pensa" e tem um "altíssimo nível de endividamento que se vai agravar nesta situação".

O especialista em política internacional tem mesmo dúvidas de que seja a China a "dominar a Ásia" no futuro, quando países como a Coreia do Sul o Japão e Taiwan também conseguiram dar a volta por cima à pandemia e podem emergir como novas potências.

"As questões tecnológicas parecem-me ser mais importantes do que a questão comercial. Saber quem dominará as tecnologias de ponta", destaca Miguel Monjardino.

Alterações climáticas

Com a drástica quebra no consumo de carvão e petróleo, a cair 9,3 milhões de barris por dia, as estimativas indicam que as emissões mundiais de CO2 podem reduzir-se este ano em cerca de 7% , valor próximo do que o planeta devia atingir em 2020 com o cumprimento do Acordo de Paris.

Talvez por isso a questão das alterações climáticas tenha deixado de marcar a agenda mediática, quando no inicio do ano surgia em grande destaque no discurso dos agentes políticos de todo o mundo. Parece um problema resolvido, mas não é.

Várias organizações nacionais e internacionais já alertaram para o facto de que, uma vez ultrapassada a crise da Covid-19, a urgência na recuperação económica e subida na produção pode sacrificar as preocupações ambientais. E com o preço do barril de Brent tão barato, a tentação de vários países será recorrer às energias fósseis.

Como será financiada a transição energética em economias economicamente fragilizadas? questiona Miguel Monjardino. "Ninguém consegue prever para que lado as coisas irão".

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