Catarina Martins não pode seguir "lógica do Titanic: continuar à frente do barco mesmo que ele se afunde"

Boaventura de Sousa Santos pede uma nova liderança para o Bloco de Esquerda. O sociólogo assume-se eleitor do partido, e, perante os resultados das legislativas, dirige um recado a Catarina Martins: "Obviamente, demita-se!" Entrevistado na Manhã TSF, o professor universitário reconhece que "os políticos também se enganam, porque são humanos".

O Bloco de Esquerda foi um dos partidos mais penalizados nestas eleições legislativas, tendo perdido 14 deputados. No rescaldo da noite eleitoral, o sociólogo Boaventura de Sousa Santos, num artigo no jornal Público, assume que sempre votou no Bloco e que só falhou uma vez. O eleitor fiel aconselha, no entanto, a Catarina Martins: "Obviamente, demita-se!"

Entrevistado por Fernando Alves, na Manhã TSF, Boaventura de Sousa Santos reforçou que a coordenadora do Bloco não tem condições políticas para se manter no cargo: "Não, no meu entender não." A demissão "era o caminho que deveria fazer, perante resultados muito maus", frisa. "É uma atitude democrática", face à "manifestação de vontade [dos eleitores] sobre o futuro das instituições".

O sociólogo pede a Catarina Martins que não siga a "lógica do Titanic: continuar à frente do barco mesmo que ele se afunde". Comentando o facto de o histórico comunista Carlos Brito ter considerado na segunda-feira que o PCP sofreu uma "grande derrota" nas eleições legislativas e que deve fazer um "sério e profundo reexame" sobre o panorama sociopolítico em que está inserido, Boaventura de Sousa Santos diz-se a favor de que a mesma análise seja feita no seio do Bloco.

Apesar de admitir que "muitos eleitores de esquerda ficaram felizes com a vitória do Partido Socialista", o professor acredita que os portugueses estão apreensivos com a escalada da extrema-direita. "É preocupante. Os portugueses tiveram muito medo, as pessoas mais à esquerda tiveram muito medo." É assim que Boaventura de Sousa Santos explica também a derrota dos sociais-democratas. O PSD falhou ao não estabelecer linhas vermelhas em relação ao Chega, ao contrário, por exemplo, do que Angela Merkel fez na Alemanha.

"A geringonça à direita assustou muito", afirma o professor, que espera que o PS continue a sentar-se com todos os partidos, dando preferência aos da esquerda, e que espera também que PCP e BE acertem agulhas, agora em novas negociações. porque nada é irreversível e há sempre tempo para mudar de estratégia, alerta. Para o Bloco, Boaventura de Sousa Santos deseja que a sua líder não mantenha uma "posição muito rígida como se nada tivesse acontecido", já que "os políticos também se enganam, porque são humanos".

O que Boaventura de Sousa Santos defende no artigo do jornal Público é que o Bloco de Esquerda não entendeu os sinais dos que nesta força política votam, não os escutou no lugar onde os eleitores discutem medos e esperanças, nos termos que lhes são próprios. A consequência tornou-se evidente, argumenta: votar no Bloco significaria, para essas pessoas, maior instabilidade.

E, na noite das eleições, o que o professor catedrático jubilado ouviu de Catarina Martins foi um discurso "patético", uma oratória que resulta de uma ideia feita: "Quando a teoria colapsa ante a realidade, a culpa é da realidade." Neste caso, um colapso eleitoral, e nunca da teoria, acrescenta.

Boaventura de Sousa Santos prossegue falando da "tragédia" do BE, que é já poucos notarem diferenças entre o Bloco e o Partido Comunista Português.

No que ao chumbo do Orçamento diz respeito, o professor vários sublinhados: assim se impediu que o país tivesse contas melhoradas, porque o BE poderia apresentar propostas na especialidade. Boaventura de Sousa Santos salienta que assim se abriu a porta a que agora o país tenha um Orçamento pior do que teria se não tivesse havido eleições. Ao votar contra, o Bloco de Esquerda deixou o PS solto para ser "menos de esquerda" do que os eleitores do BE gostariam que fosse. "São dois tiros nos dois pés", e, com eles, só "por milagre", o partido não cairia, sustenta.

Nas notas que o sociólogo foi tomando ao longo da campanha, fica ainda registado: a líder do Bloco passou a primeira metade a justificar por que rejeitou o Orçamento. Na segunda parte, pareceu querer pedir desculpa por isso, assinala Boaventura Sousa Santos, que conclui: "Que credibilidade pode ter tal dirigente?"

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