E depois da Covid-19, quando a confusão mental e a depressão se abatem. "É como se a cabeça estivesse
Coronavírus em Portugal

E depois da Covid-19, quando a confusão mental e a depressão se abatem. "É como se a cabeça estivesse vazia"

Maria Emília dos Santos Ramos diz ser um argumento vivo, contundente, de que a Covid-19 não é para menosprezar. "A gripe não tira a vontade de viver, uma gripe não tira a nossa memória, uma gripe não nos tira o ar, não tira as forças. Quando a gripe acaba, volta tudo ao normal, e eu, passados seis meses, não tenho nada que tivesse regressado ao normal." A Covid-19 alterou-lhe a respiração e o pulso de vida, foi como um soco que a deixou a contorcer-se de uma dor que não a larga.

Quando sobe ou desce escadas, ainda arqueja, uma marca deixada em muitos dos que tiveram a doença. Mas o mistério da falta de memória, os sinais depressivos e a ausência de força para as atividades diárias são como o sufoco da esperança. "Eu não sei o que seria melhor: se estar como estou ou ter morrido de Covid", confidencia, em entrevista para o programa Botequim, da TSF.

Maria Emília dos Santos Ramos tem 51 anos, vive na Maia e é assistente operacional na Cirurgia Cardiotorácica no Hospital São João. Todos os dias calcorreou os corredores, com a imagem cinzenta dos caixões de alumínio bem presente. No dia 21 de novembro, recebeu a confirmação de que a pandemia também a atingira. Ao teste positivo ao coronavírus, seguiram-se mais de 20 dias de doença. "Os sintomas ainda hoje os tenho", salienta a profissional de saúde.

As "marcas" deixadas pela Covid-19 vão além da "muita falta de ar" e da "ausência de forças", da dificuldade em subir e descer degraus e de transportar pesos. "Eu era uma pessoa que decorava tudo e mais alguma coisa. A minha cabeça, neste momento, está como se estivesse vazia. Sou capaz de ter algo para fazer hoje, mas, se eu não tiver anotado, eu não vou comparecer porque não me vou lembrar. O meu filho instalou-me uma agenda no telemóvel, para eu escrever tudo."

Garante que a "névoa mental" não a abandona desde que, há sete meses, foi diagnosticada com Covid-19. "É como se tivesse ali alguma coisa a esconder os nossos pensamentos, o que temos para fazer; tudo está ali tapado e a gente bem se esforça para se tentar lembrar, mas não, não se consegue", lamenta-se.

"Neste momento, não tenho paciência para ler um livro nem para ver um filme, e eu que adorava ler e ver televisão... Irrita-me, tudo me irrita. Estou a ver o filme e, passado pouco tempo, já me esqueci do que tinha acontecido para chegar até ali." É um estádio de tristeza que se confunde com o marasmo e a revolta, e que a impede de desempenhar tarefas que antes lhe pareciam simples e familiares. "Pego num livro e é como se não tivesse lá nada. Leio e tenho de voltar ao princípio."

É como se nunca tivesse saído da página inicial, apesar de ter sido dada como recuperada. Mantém muitos sintomas e sente muitas dificuldades nas tarefas diárias. E, se antes conciliava dois trabalhos, num lar e no hospital, hoje mal tem forças para as seis horas diárias no hospital, e as atividades no lar tiveram de ser deixadas para trás.

Sozinha, com a doença, contra o mundo... e contra os negacionistas

Maria Emília dos Santos Ramos está a fazer fisioterapia, a ser acompanhada pelas Doenças Infecciosas e avaliada pela neurologia do Hospital São João e frequenta consultas de psicologia, mas continua na sala de espera da recuperação. "Não sei se volto a ser a mesma pessoa. Há pessoas que me dizem 'anda lá, deixa-te disso, isso não tem nada a ver com a Covid'."

São os mais céticos que conseguem perturbá-la mais. Maria Emília dos Santos Ramos trocou a cabeleireira, com quem arranjava o cabelo "há muitos anos", precisamente por isso. "Ela não acredita na Covid. O facto de ter fechado tudo, para ela, foi doloroso. Juntou-se a este grupo de negacionistas e não acredita em nada. Quando eu lhe dizia que o hospital estava cheio, que só via caixões de alumínio a passar, ela respondia: 'Não venhas para aqui com essas coisas, isso é uma história mal contada'."

Só que a história conta-se assim: a Covid-19 "mudou muita coisa", e não pode ser ignorada. "Eu era uma pessoa muito dinâmica. Agora chego a casa e tenho de me deitar. Não tenho forças para mais nada, só me apetece chorar... Muita tristeza dentro de mim." A desesperança abate-se sobre a assistente operacional com mais força quando se dá conta da falta de conhecimento que ainda existe em torno desta matéria. Os médicos e psicólogos, "neste momento, não sabem nada, e a única coisa que sabem dizer é que vai passar".

Em Portugal, têm sido registados casos de perturbações do sono, dificuldades de concentração e alterações do foro psicológico e psiquiátrico, potenciadas pela Covid-19. Cláudio Laureano, diretor do Serviço de Psiquiatria e Saúde Mental do Centro Hospitalar de Leiria, referiu, em declarações à TSF, que algumas das manifestações mais graves de infeção por SARS-CoV-2 originam "aquilo a que alguns autores já chamam Síndroma Pós-Covid", um quadro caracterizado "por ansiedade, sintomatologia depressiva, alterações do sono, e, inclusivamente, sintomas que em muito se assemelham, ou podem mesmo conjeturar, uma perturbação de stress pós-traumático". Em Espanha, a Sociedade Espanhola de Médicos Gerais e de Família - que falou com 2120 pessoas, das quais 1834 com sintomas compatíveis com a doença -, chegou ao perfil típico da Síndrome Pós-Covid: uma mulher de 43 anos com, em média, 36 sintomas.

Maria Emília dos Santos Ramos acredita que faz parte da estatística. Os médicos afirmam que está a passar por uma depressão, mas a paciente tem dúvidas. "Não há estudos, não há como tirar a pessoa lá do fundo", diz, com a voz embargada.

Tratada como uma "depressão"

Tenha o nome que tiver, esta é uma síndrome "de ausência de vida" que também lhe alterou a vida familiar. Tem três filhos, um dos quais, com 24 anos, vive na mesma casa. "Está sempre preocupado comigo porque passo a vida a chorar e passo a vida na cama. Conseguia pegar em três ou quatro sacos, e, no hospital e no lar, pegava nos doentes sozinha. Neste momento, não consigo pegar em nada."

"O impacto é muito grande." De uma força dinâmica passou a sentir-se impotente. "Sinto-me revoltada com toda a gente. É como se toda a gente me fizesse mal. Sinto uma revolta muito grande, porque deixei de ser aquela mulher que era, que chegava a casa, mesmo depois de uma manhã muito difícil, eu fazia tudo e não parava." Maria Emília dos Santos Ramos tem encarado a vida como uma rampa descendente. "É doloroso recordar a pessoa que era, é um declínio muito grande. Antigamente queria tudo para ontem, e, neste momento, tanto me faz se for para ontem, se for para amanhã ou para daqui a um ano. Já não me faz diferença. Eu não sei o que seria melhor: se estar como estou ou ter morrido de Covid."

Falta-lhe uma dose para completar a vacinação, mas não vê nela uma saída do túnel. Voltar a ver o sol a jorrar o seu alimento e o mar, com a força de quem sempre prossegue, é ainda um sonho distante, mais distante do que é o seu quarto da marginal mais próxima. "Eu gostava de ir à praia. Se o meu marido me quisesse fazer uma surpresa, levava-me à beira-mar. Cheirar o mar, ver aquelas ondas... Agora o mar não me traz nada. Nada. Dá-me inveja ver aquelas pessoas a sorrir, a saltar, a brincar, e eu a não ter capacidades para isso."

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