Como Marcelo ia provocando a demissão de Centeno mas depois ligou a falar num "equívoco"

O ministro das Finanças não gostou da "ingerência" do Presidente da República e foi a S. Bento apresentar a demissão. Costa conseguiu segurar o ministro e Marcelo ligou a falar num "equívoco".

Quando Mário Centeno chegou à TSF, esta terça-feira, para a entrevista onde ia, pela primeira vez, explicar o que aconteceu com a transferência dos 850 milhões de euros para o Novo Banco, já tinha "acertado agulhas" com o primeiro-ministro. Nessa mesma manhã, Centeno e Costa acertaram o que seria dito e o que o ministro das Finanças tinha para explicar deixaria sempre António Costa numa posição difícil. Mas tinha de ser.

À TSF, Mário Centeno explicou três coisas: que a transferência dos 850 milhões de euros para o Novo Banco resulta do contrato assinado com a Lone Star, aquando da venda. Que as contas de 2019 do Novo Banco foram auditadas e verificadas por uma comissão técnica do Fundo de Resolução. E que houve uma "falha de comunicação" com o primeiro-ministro, que levou António Costa a dizer o que disse no Parlamento ao Bloco de Esquerda e depois a pedir desculpa.

O plano seria esperar que a polémica passasse naturalmente. Mário Centeno ia ao Parlamento na quarta-feira responder aos deputados, com um plano de ataque ao PSD - pela forma como decorreu a resolução do antigo BES - e António Costa evitaria falar do assunto na visita que tinha marcada com o Presidente da República à Autoeuropa.

Costa fez o que tinha pensado. Para desviar as atenções do Novo Banco, lançou a recandidatura de Marcelo Rebelo de Sousa, deu como quase certa a sua vitória e deixou nas entrelinhas a ideia de que o PS não apoiaria outro candidato. A declaração do primeiro-ministro apanhou Marcelo desprevenido e obrigou-o a improvisar.

Até que os jornalistas decidem perguntar ao Presidente da República pela polémica em torno do Novo Banco. E é aí que Marcelo sai em defesa de António Costa, defendendo que o primeiro-ministro "esteve muito bem" no debate quinzenal "quando disse que fazia sentido que o Estado cumprisse as suas responsabilidades, mas quando se conhecesse, previamente, o resultado da auditoria".

As palavras do Presidente caíram mal no Terreiro do Paço. A TSF sabe que o ministro das Finanças considerou as declarações de Marcelo Rebelo de Sousa como "uma ingerência" e Centeno não foi de modas: pegou no telefone e pediu uma reunião a António Costa.

Reunião em S. Bento

A notícia de que Costa e Centeno estavam reunidos na residência oficial do primeiro-ministro criou a dúvida legítima sobre a continuidade do ministro das Finanças. Mário Centeno chegou disposto a apresentar a demissão, caso António Costa não esclarecesse a "ingerência" do Presidente da República.

Durante horas, todos tiveram ordens para não atender os telefones aos jornalistas. Assessores, ministros, secretários de Estado, ninguém. De S. Bento só o silêncio. Na sala de reuniões onde Costa e Centeno conversavam, tentava-se encontrar uma saída airosa para a situação, que não deixasse ninguém mal na fotografia. Nem o ministro das Finanças, nem o primeiro-ministro, nem o Presidente da República, que Costa tinha, umas horas antes, empurrado para um novo mandato.

O comunicado enviado para as redações foi o compromisso possível. Reafirma o que Mário Centeno tinha dito na TSF e no Parlamento, parte do que António Costa também já tinha explicado sobre a auditoria da Deloitte e termina com a reafirmação da confiança do primeiro-ministro no ministro das Finanças.

"Foi um equívoco". O telefonema de Marcelo a Centeno

Marcelo foi acompanhando a conversa à distância e, antes mesmo de terminar, já sabia que Centeno ia permanecer no Governo. O Presidente da República considerava "um absurdo" perder Mário Centeno numa altura destas, a um mês de um Conselho Europeu decisivo, a dois meses do fim do mandato como Presidente do Eurogrupo e no meio de uma pandemia que ameaça atirar o país para uma crise económica e social de dimensões ainda imprevisíveis.

Ao que a TSF apurou, Marcelo rebelo de Sousa telefonou a Mário Centeno quarta-feira à noite, para lhe explicar as declarações feitas ontem na Autoeuropa. Disse ter-se tratado "de um equívoco".

Há quase dois meses, Marcelo tinha recebido o ministro das Finanças em Belém para o convencer a ficar e, aparentemente, não terá sido muito difícil. Mário Centeno estava consciente do momento difícil que o país está a atravessar e descansou o Presidente.

Se, depois deste episódio, o estado de espírito de Centeno mudou, ninguém se atreve a adivinhar. Até porque o ministro não verbaliza, nem com os mais próximos, o que está a pensar fazer nos meses mais próximos. Uma coisa é certa, a continuidade do ministro das Finanças ficou mais difícil depois deste episódio.

Recomendadas

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de