Notre-Dame

Notre-Dame sobreviveu e, depois do choque, Paris também. Tudo o que se sabe

Catedral com nove séculos de história é um dos símbolos da capital francesa. O pináculo colapsou e a nave central ardeu, mas o altar, as relíquias e a vontade dos parisienses mantêm-se vivas. Eles estão prontos para a reconstrução.

O dia 15 de abril fica para a história como aquele em que Notre-Dame quase desapareceu. Os próximos serão (espera-se) aqueles em que fica explicado como tudo aconteceu.

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As primeiras explicações para o sucedido surgiram menos de uma hora depois do início do incêndio: os bombeiros admitiam que na origem das chamas estariam os trabalhos de recuperação a que a catedral estava a ser submetida.

Ao início da madrugada, as autoridades ouviam os primeiros trabalhadores da construção civil. Antes, já a Procuradoria de Paris tinha anunciado que o incêndio estava a ser encarado como um acidente, referindo que a polícia avançará com uma investigação por "destruição involuntária causada pelo fogo".

O sótão terá sido o local exato do início do fogo e explica, em grande parte, uma das principais imagens que ficam deste incêndio: o colapso do pináculo de Notre-Dame.

A estrutura era uma das mais frágeis da catedral e depressa foi engolida pelas chamas. A imagem foi suficientemente forte para que quem assistia se lembrasse do 11 de setembro de 2001 e da queda das torres gémeas.

Um tesouro em todas as dimensões

Curioso é que, na última quinta-feira, tinham sido retiradas 16 estátuas de bronze - dos 12 apóstolos e quatro evangelistas - para trabalhos de restauro. As estátuas estavam afixadas precisamente em redor do pináculo e, se não tivessem sido retiradas, teriam feito parte da lista de património perdido.

O que não se perdeu é, no entanto, também de destacar. Em Notre-Dame estão guardados, nada mais, nada menos, do que parte da coroa de espinhos que terá sido usada na crucifixação de Jesus Cristo, bem como parte da cruz presente no mesmo episódio bíblico. Além destas relíquias, na catedral está também guardada a túnica de São Luís, uma peça de linho do século XIII.

O resto do Trésor ficou também a salvo das chamas, tal como a Sacristia. Não há ainda certezas quanto ao estado do Grand Orgue, um órgão de tubos construído em várias fases e que assumiu a atual dimensão no século XVIII.

A fé dos parisienses

O altar e a cruz da catedral escaparam aparentemente ilesos a este incêndio. As primeiras imagens do interior da catedral no pós-incêndio mostrar a cruz dourada intacta e em pé, rodeada de escombros.

A dimensão religiosa não ficou afastada deste incêndio. O arcebispo de Paris apelou à oração e ordenou que fossem tocados os sinos da cidade, chamando os fiéis às igrejas. O Vaticano mostrou-se "incrédulo" com o que sucedia e, nas ruas, centenas de franceses e turistas reuniam-se em pequenas vigílias.

As imagens tornadas possíveis pela tecnologia eram aterradoras. Notre-Dame emitia um sinistro brilho vermelho, em brasa.

Centenas no combate, um único ferido

O incêndio foi combatido por mais de 400 bombeiros, mas nem o número elevado de operacionais permitia que o combate fosse dado como possível de vencer. O porta-voz dos bombeiros parisienses chegou mesmo a admitir que poderia não ser possível controlar o fogo e evitar a destruição total da catedral. Duas horas depois, anunciava que, embora fossem necessárias mais três ou quatro horas de combate, a estrutura e as torres estavam a salvo da destruição total.

No meio de quatro centenas de bombeiros, é quase milagroso o número de feridos: apenas um, embora esteja em estado grave. Entre os civis não se encontraram vítimas: a Île de la Cité foi evacuada pouco tempo depois do alerta inicial - dado às 17h50 (hora de Lisboa) - e a ilha foi completamente isolada. Só entravam entidades oficiais e veículos de emergência.

Meios aéreos? Não. Por que não?

Entre as entidades oficiais - as que lá estiveram e as que enviaram mensagens - houve quem se destacasse pelo bom e pelo mau. Donald Tusk, presidente do Conselho Europeu, relembrava que "Notre-Dame de Paris é Notre-Dame da Europa", apelando à união e apoio.

O primeiro-ministro português, António Costa, também transmitiu a sua solidariedade ao presidente francês, Emmanuel Macron, e à presidente da câmara de Paris, Anne Hidalgo, lamentando que parte da "história da Europa" desapareça.

Donald Trump, do outro lado do Atlântico, aconselhava rapidez no combate ao incêndio e sugeria o uso de aviões. A Proteção Civil francesa não quis perder a oportunidade e, às cavalitas de Trump, ensinou ao mundo que nunca se deve combater um incêndio deste tipo com recurso a água espalhada por meios aéreos.

"Largar água a partir de um avião sobre este tipo de edifício pode ter como efeito o colapso de toda a estrutura", escreviam as autoridades francesas no Twitter, o mesmo local a que Trump tinha recorrido para dar a conhecer a sua visão.

"Seja através de "helicóptero ou avião, o peso da água e a intensidade da queda a baixa altitude podem enfraquecer a estrutura de Notre-Dame e causar danos colaterais nos edifícios circundantes", completava a Proteção Civil, numa tentativa de se antecipar a Trump quanto a uma possível achega.

Paris chorou a perda de uma parte de si

Nem só de personagens reais vinham reações a este incêndio. Alguns deles nem precisavam de falar: é o caso de Quasimodo, personagem principal da famosa adaptação para animação de "O Corcunda de Notre Dame".

O desenho de Cristina Correa Freile, ilustradora equatoriana, dizia o suficiente sobre o que ia na alma dos parisienses e franceses. 856 anos depois da sua edificação , Notre-Dame terá de se reerguer das cinzas.

Macron reforçou que se "evitou o pior" e já assegurou que a vontade de reerguer Notre-Dame será posta em prática já a partir desta terça-feira.

Já há angariações de fundo em curso e a família Pinault, num comunicado enviado à France-Presse, já anunciou que vai desbloquear uma verba de 100 milhões de euros para auxiliar na reconstrução.

A estrutura está a salvo, tal como as torres. Do interior, salvou-se com toda a certeza o altar e as relíquias. A história também não desaparece, mas cabe aos parisienses reconstruir o que lhes dá forma, pedra sobre pedra.

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